domingo, 11 de maio de 2025

Não há trabalho sem recompensa

 Não tenho nada contra o mercado de trabalho e nem ao trabalho em si, pelo contrário amo trabalhar e principalmente trabalhar naquilo que amo. Mas se eu amo trabalhar por que eu não estava amando meus antigos trabalhos como eu deveria amar?

Empreender é um ato revolucionário!

Por toda nossa vida vemos, as pessoas trabalhando (carteira assinada) para se sustentar e aprendemos que este é o único meio de termos uma vida digna e segura, vi meu pai trabalhando muito ou melhor não vi muito meu pai porque ele estava trabalhando, minha mãe pelo contrário sempre esteve mais presente e admiravelmente também sempre deu seus "pulos". Como uma boa vitima do mundo do consumo minha mãe sempre teve desejos de compras que o salário do meu pai infelizmente não podia sustentar, motivada pelos seus desejos pontuais, ela ia atrás de fazer grana para realizá-los e sempre fez, sempre deu certo, só não mantinha determinada constância, porque também nunca teve grandes ambições ou uma visão de mundo mais audaciosa. Mas independente disso eles sempre me ensinaram o valor do trabalho e sempre me incentivaram e fizeram o que podiam e até o que não podiam para para me dar a oportunidade do estudo, luxo que nem eles mesmo tiveram.

E eu abracei esta oportunidade com unhas e dentes, eu amava estudar, porque eu tinha sede de aprender sobre como as coisas funcionam, como elas se conectam, adoro resolver enigmas e problemas de matemática, escrever poemas, crônicas e peças teatrais, fui aluna destaque e fazia isso não só porque eu gostava, mas também por eles, e eles me cobravam... e sem reconhecimento, viu?, os mais difíceis chefes que eu já tive... e sem dúvidas, os que mais queriam e sonhavam o melhor para mim. 

E embora nem sempre eu entendesse todos os esforços deles para que eu pudesse estar ali estudando, eu sempre me agarrei aos estudos, não só pela minha obrigação para com eles, mas também porque eu enxergava no estudo o poder de transformação, poder de mudança de vida, e não que a vida estivesse "tão" ruim pra mim (eu tinha o que comer, tinha tempo para brincar e estudar), mas se eles queriam que eu estudasse para ter uma vida melhor é porque para eles não estava tão boa assim.

E sim! estudar transforma. E sim, eu segui os conselhos dos meus pais e estudei, mesmo quando fui ridicularizada por ser "CDF", aluna destaque, por lutar por melhores condições de infraestrutura estudantil na política municipal em projeto como o "Câmara jovem". Incomodei tanto que até um vereador me ligou na escola, para reclamar da minha postura nas sessões ordinárias da câmara, teve uma delas que até levei minha sala com cartazes apoiar a causa. Mas enfim, nunca desisti de estudar e o estudo me abriu muitas portas, me levou a lugares nunca frequentados por ninguém da minha família, me permitiu alcançar meus sonhos: me formei engenheira, fiz intercâmbio em outro país, fiz duas iniciações científicas, conquistei uma patente, realizei duas ICs, passei em vários programas de estágio e trainee, viajei e conheci vários países, consegui bons cargos e salários, cheguei a um sonhado cargo de liderança e gestão, mas ainda não era este o "sucesso" que eu esperava com os meus estudos.

Me dediquei muito ao trabalho, me dediquei mais ao trabalho que a outros aspectos da minha vida, afinal de contas o mercado de trabalho está dimensionado para isso, e ainda assim não senti o sucesso vir, meu poder de compra aumentou, mas cada vez tinha menos tempo de fazer algo que eu gostava por mim, pela minha comunidade, sentia que meu poder de transformação estava diminuindo e eu estava me escondendo atrás de uma tela por mais de 40h na semana para ganhar dinheiro e com muita cobrança para gerar mais dinheiro para que meu salário valesse a pena, e assim algumas promoções vieram, agora com meu novo poder aquisitivo podia levar meus pais para restaurantes e passeios que eles nunca fizeram. E sou muito feliz e grata a isso, por poder dar a eles o que o mercado do consumo me vendia e por alimentar a imagem de "sucesso" que eles criaram.

Mas isso não estava me fazendo feliz, este não era o "sucesso" que eu almejava, o meu eu criança  estava gritando pra mim, para eu me despertar, e eu não estava ouvindo, até que as crises de ansiedade iguais as que tinha na infância voltaram, e eu estou no processo de entender o que elas querem me dizer, e sem dúvidas tudo que acabo de escrever é uma dessas.  As vezes ouvir nossas emoções, por mais sofridas que sejam  é o melhor caminho para curá-las, e estou me permitindo sentir, e resistindo a químicos, porque sei de onde vem esta dor, mesmo não conhecendo exatamente ainda seus gatilhos, sei que o caminho do "sucesso" que segui até aqui, fez muito sentido, me abriu muitas portas e estou sendo muito grata a ele e as minhas escolhas. Mas o que realmente eu quero a partir de agora é voltar a ter tempo de gerar transformação, de estar engajada em ações que promovam mudanças para melhor, que incentivem outras pessoas a sonharem, que ajude a quem estiver buscando ajuda, que eu seja luz e cura e que antes disso ou no processo eu também possa me curar. 

Estou muito feliz que neste momento estou tendo TEMPO, tempo para rever os amigos de infância, tempo para levar meu irmão na escola e aprender karatê com ele, tempo para ler livros que não estava conseguindo ler antes, tempo para cuidar da casa e das plantas, tempo para realizar trabalhos voluntários, tempo para pensar mais consciente, tempo para me dedicar a projetos pessoais e empreendimentos, olha quanta coisa cabe nesse TEMPO que antes só estava cabendo trabalho... É claro que algumas inseguranças vem, é claro que eu escuto e vejo coisas que me causam preocupação por estar sem trabalho formal, é claro que nem tudo sai como a gente planeja, mas eu estou disposta por pelos menos um ano me permitir tentar viver e "ganhar" a vida por um caminho que não é o caminho mais tradicional, o caminho do empreender. Caminho que para alguns gera encantamento porque conhecemos empreendedores que construíram grandes impérios, mas caminho também que a muitos assustam, eu enxergo os dois lados, busco equilibrá-los mas me permitindo enxergar mais o encantamento, mesmo sabendo das desilusões que podem ter.

Afinal de contas a motivação vem da alma, e para mim este olhar apreciativo do encantamento do poder da transformação ajuda, e sei que o empreendedorismo gera esta transformação, e isso deveria ser ensinado nas escolas e nas universidades. A gente não aprende a empreender, a gente só aprende a ser bom para servir uma empresa, a gente recorre para o empreendedorismo quando algo não vai bem no mercado de trabalho, a gente não aprende que podemos também gerar valor por meio do nosso conhecimento e gerando valor a gente transforma e transforma não só a nossa realidade mas de todo nosso entorno que é impactado por ele, e sem dúvidas esta transformação também contribui para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. E minha grande pergunta é: por que isso não é ensinado nas escolas nem nas universidades? E por que quando começamos a empreender parece que estamos fazendo algo muito errado? E por que algumas pessoas tentam nos desencorajar desta vontade para o "nosso" bem? E por que quando queremos isso, temos grandes admiração por quem também está fazendo ou por quem já fez, que chegam até parecer  heróis, heroínas, gênios ou rebeldes?



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